Onde está o futebol feminino um ano depois da Copa do Mundo?

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*Por Carolina Chrispim

Após a Copa da Copas, os desafios para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil seguem cada vez mais duros. Apesar dos excelentes resultados de público nos estádios franceses, das transmissões em tv aberta no Brasil (com recorde de audiência na final, mesmo sem a presença da seleção brasileira) e do crescente interesse do público pela modalidade, ainda não saímos do lugar.

Todos os buracos e a falta de planejamento no futebol nacional foram destacados pela chegada da COVID-19. Jogadoras sem salário ou dispensadas, sem boas condições de treinamento e sem perspectiva para a volta das competições nacionais, que já são poucas, demonstram a falta de qualquer competência na gestão na modalidade. Até o momento, não há movimentações voltadas à criação de um protocolo de segurança focado no retorno das atividades e tão pouco uma previsão de volta dos campeonatos.

Os questionamentos levantados pela FIFA com relação à candidatura brasileira para sediar a Copa do Mundo de 2023, tais como a falta de garantias e de investimento do governo federal, são prova dessa má organização. É impossível o planejamento e a realização do evento de maneira satisfatória, além de representar um grande contraste quando analisamos as atuais condições precárias em que muitos clubes não contam sequer com estruturas mínimas aceitáveis e equipes técnicas qualificadas. No ano passado, por exemplo, o Santos viajou a Manaus para enfrentar o Iranduba pelo Campeonato Brasileiro da série A1, mas as jogadoras, sem vaga no hotel, tiveram que dormir na recepção. Este mesmo Iranduba, que há alguns anos era um dos principais clubes do Brasil, está fazendo uma vaquinha para ajudar a custear o clube.

A presença feminina na gestão do futebol, inclusive, é um assunto que ganha cada vez mais relevância. De acordo com o relatório global divulgado pela FIFPro, o estado atual da modalidade no mundo mostra um cenário preocupante, em que as jogadoras não são ouvidas, e os ambientes de trabalho são pouco seguros e não atendem suas necessidades mínimas. Além disso, a grande maioria das atletas não sabe dizer se há um planejamento para o futebol feminino dentro de seus clubes e federações, o que mostra que a falta de rumo não é exclusividade do Brasil.

Em meio ao período de definição dos protocolos para o retorno do futebol no mundo, três das maiores ligas europeias optaram por encerrar suas temporadas, enquanto seus respectivos campeonatos masculinos, à exceção da França, terão continuidade aplicando protocolos de contingência de público e segurança. A Alemanha foi o único país com uma liga feminina importante a retomar o campeonato nos mesmos moldes da Bundesliga.

Na América do Sul, a CONMEBOL suspendeu a obrigatoriedade dos clubes manterem suas equipes femininas para a disputa da Libertadores, sob a alegação de não haver condições para punir aqueles que desrespeitassem a norma. Foi anunciado, no entanto, que essa suspensão será provisória e com restabelecimento previsto para 2021, sendo possível supor a adoção de medidas mais flexíveis neste sentido no futuro. Tal decisão preocupa, pois pode representar um atraso no desenvolvimento da modalidade no continente, dado que muitos clubes no Brasil já tiveram suas equipes femininas desmontadas neste período de pandemia. Além disso, o já reduzido calendário de competições está suspenso e as jogadoras seguem sem treinamento, supervisão e, até mesmo, salários. Apenas os times de maior expressão no Brasil possuem contratos com suas jogadoras, caso de Corinthians e Santos. Ainda assim, são acordos curtos, geralmente com duração de um ano, e que não permitem um bom planejamento de carreira por parte das atletas. Jogadoras de times menores e, principalmente, de fora do Estado de São Paulo têm condições ainda piores: salários de até R$500 mensais são comuns, assim como bolsas ou ajudas de custo.

Apesar de resultados não muito animadores no Brasil, o crescimento da modalidade pelo mundo segue sendo significativo. Há um recorrente aumento no número de times femininos, com investimentos destinados exclusivamente para a modalidade e patrocínios maiores e mais frequentes para competições, clubes e atletas. A Copa do Mundo de 2019 realmente ajudou a criar uma base internacional, dando mais visibilidade e possibilitando investimentos para fortalecer competições e fomentar programas de desenvolvimento. No entanto, ainda é preciso criar oportunidades para que as jogadoras permaneçam no futebol profissional como uma opção de carreira viável, garantindo boas condições de trabalho, segurança, longevidade na indústria e consistência de calendário, começando pelas categorias de base.

É evidente que o futebol feminino entrega diversas oportunidades inexploradas no consumo do futebol e prova disso está no número de grandes empresas se tornando parceiras de clubes e ligas. Marcas como Avon, Barclays, Visa e Budweiser estão consolidadas na modalidade, com presença firme em grandes campeonatos. A partir disso, cabe a nós criar soluções reais e eficazes para a expansão do futebol feminino e desenvolver planos de gestão independentes do futebol masculino. O potencial da modalidade é evidente, mas para que ela se torne sustentável, precisamos de investimentos de longo prazo, de modo que não seja vista como mera ação social ou contrapartida imposta à força, e possa ir além do hype de um único torneio e da óbvia constatação dos problemas que todos já conhecemos.

*Carolina Chrispim é especialista em futebol feminino e consultora na Outfield Consulting. Formada em marketing, possui experiência em bens de consumo, mídia e entretenimento atuando nas áreas de pesquisa, consumer insights e parcerias.

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